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6 min 14 Mar 2026

Psicomotricidade e Neurociências: como o movimento constrói o cérebro

Texto sobre neuroplasticidade, circuitos neurais e como o movimento participa da construção do cérebro e da aprendizagem.

Psicomotricidade e Neurociências: como o movimento constrói o cérebro

Psicomotricidade e Neurociências: Como o Movimento Constrói o Cérebro Dr. José Irineu Gorla Sabe, muitas vezes, quando as pessoas veem uma criança correndo, pulando, montando um circuito, brincando, elas pensam que é só isso mesmo... uma brincadeira. Mas o que a ciência nos mostra, e o que eu quero compartilhar com vocês hoje, é que cada um desses movimentos está, literalmente, construindo e esculpindo o cérebro dessa criança. Cada salto, cada giro, cada tentativa de equilíbrio é uma oportunidade de desenvolvimento neural. Então, vamos começar pela pergunta de um milhão de dólares: como é que o que fazemos com o corpo, o movimento, consegue de fato alterar a estrutura e a função do nosso cérebro? A resposta está em um conceito que, para mim, é a chave de tudo: a neuroplasticidade. Quando falamos em neuroplasticidade, pode parecer um termo super complexo, mas a ideia é até que simples e muito poderosa. É a capacidade que o nosso cérebro tem de se modificar, de se reorganizar, em resposta às experiências que vivemos. E na infância, essa capacidade está no auge! O cérebro infantil é como uma esponja, mas não só absorvendo informações... ele está se remodelando constantemente. Artigos científicos publicados em revistas de prestígio, como a Frontiers in Neuroscience, mostram que o cérebro infantil passa por um processo intenso de criação de conexões neurais, a chamada sinaptogênese. É como se o cérebro estivesse lançando cabos para todos os lados, criando uma rede imensa de possibilidades. Nos primeiros anos de vida, essas conexões são formadas em uma velocidade impressionante. Mas o que acontece depois? Vem um processo que eu gosto de chamar de "limpeza inteligente": a poda sináptica. Aqui, as conexões que não são usadas, que não são estimuladas, são eliminadas. E as que são muito usadas, como as de um movimento que a criança repete várias vezes, ficam mais fortes, mais rápidas, mais eficientes. É como criar um caminho numa floresta. Quanto mais você passa por ele, mais clara e definida aquela trilha se torna. A prática de uma habilidade motora, seja chutar uma bola, pular corda ou encaixar uma peça, fortalece um caminho específico no cérebro. É a neurociência mostrando, na prática, o poder da repetição que a gente tanto fala na terapia. Não é repetição mecânica, é repetição com propósito, com desafio, com engajamento. Agora, vamos falar sobre quem está trabalhando nesse "time" dentro do cérebro enquanto a criança se movimenta. Porque não é uma área só. A neurociência nos ajuda a mapear essa equipe fascinante. Primeiro, temos o córtex motor. Ele é o grande "planejador" do movimento, a área que decide iniciar a ação. Mas ele não trabalha sozinho, de jeito nenhum.

Ele conversa o tempo todo com o cerebelo. Eu gosto de pensar no cerebelo como o nosso "maestro da precisão". Ele é fundamental para o equilíbrio, para a coordenação motora fina, para o ajuste do movimento em tempo real. Quando uma criança tenta pegar uma bola no ar, é o cerebelo que está calculando a distância, a velocidade, e ajustando a mão para o lugar certo, no momento certo. E pesquisas mais recentes nos mostram que o cerebelo não cuida só do movimento. Ele também está envolvido em funções cognitivas, na nossa capacidade de prever, de aprender com os erros motores e até na linguagem. E tem também os gânglios da base, que funcionam como um tipo de "filtro" ou "portão de controle". Eles ajudam a selecionar o movimento que queremos fazer e a inibir aqueles que não queremos. Sabe aquela impulsividade de sair correndo sem pensar, ou de fazer um movimento brusco sem controle? Os gânglios da base estão diretamente ligados a esse controle motor e também ao controle da impulsividade. Então, quando montamos um circuito psicomotor, quando propomos uma atividade desafiadora, estamos, na verdade, criando um desafio para essa equipe toda trabalhar em conjunto. A criança precisa planejar o movimento (córtex motor), se equilibrar e ajustar a cada instante (cerebelo) e controlar os impulsos, escolher a resposta certa (gânglios da base). É uma verdadeira sinfonia neural acontecendo ali, diante dos nossos olhos. E isso nos leva diretamente para a nossa prática clínica. Porque, sabendo de tudo isso, o nosso papel como psicomotricista ganha uma nova dimensão, uma responsabilidade maior. Nós não estamos só "brincando" com as crianças. Nós somos, de certa forma, "designers de experiências neurais". Quando escolhemos uma atividade que envolve pular em um pé só, depois se arrastar por um túnel, e no final montar um quebra-cabeça, estamos propositalmente ativando e integrando essas diferentes áreas do cérebro. Estamos criando oportunidades para que novas conexões se formem, para que caminhos neurais sejam fortalecidos. E tem um ponto que a pesquisa também reforça muito, e que eu considero essencial: o papel da emoção e da motivação na aprendizagem. Um ambiente de terapia que é lúdico, que é divertido, que desafia a criança na medida certa, faz com que o cérebro dela libere neurotransmissores como a dopamina, que são essenciais para consolidar a aprendizagem. Ou seja, aprender precisa ser prazeroso para que o cérebro realmente "grave" aquela informação. Uma atividade divertida não é só um bônus, ela é um ingrediente neuroquímico fundamental para o sucesso da terapia. Quando a criança está engajada, quando ela está se divertindo, o cérebro dela está em um estado ótimo para aprender. Por outro lado, metodologias complexas demais, com excesso de informações desordenadas, ou atividades desinteressantes, podem até causar experiências negativas e bloquear a aprendizagem. A neurociência nos ensina que precisamos encontrar o equilíbrio: desafio sim, mas dentro da zona de desenvolvimento da criança, com suporte emocional e um ambiente acolhedor. Então, no fim das contas, a psicomotricidade é, em sua essência, neurociência aplicada. É usar o corpo e o movimento, que são a linguagem mais natural da criança, como a ferramenta mais poderosa que existe para promover o desenvolvimento cerebral saudável.

Cada sessão que fazemos, cada atividade que propomos, cada conquista que a criança alcança, está deixando uma marca física no cérebro dela. Estamos, literalmente, ajudando a construir o cérebro do futuro dessa criança. E isso, para mim, é ao mesmo tempo uma responsabilidade enorme e um privilégio incrível. Saber que o nosso trabalho tem esse impacto profundo, que é validado pela ciência, nos motiva a continuar estudando, a continuar nos aperfeiçoando, a continuar buscando as melhores práticas baseadas em evidências. Bom, pessoal, espero que essa conversa tenha ajudado a iluminar a ciência que existe por trás de cada movimento, por trás de cada atividade psicomotora. Espero que vocês tenham percebido que o que fazemos não é só importante... é transformador.

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