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5 min 16 Mar 2026

Psicomotricidade e Autismo: entendendo a importância do movimento no neurodesenvolvimento

Texto sobre TEA, dificuldades motoras, neuroplasticidade, regulação sensorial e a relevância da intervenção motora baseada em evidências.

Psicomotricidade e Autismo: entendendo a importância do movimento no neurodesenvolvimento

Psicomotricidade e Autismo - Entendendo a Importância do Movimento no Neurodesenvolvimento Dr. José Irineu Gorla

Antes de falarmos sobre psicomotricidade, é importante entendermos o que é o Transtorno do Espectro Autista. O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento que se manifesta nos primeiros anos de vida. Ele se caracteriza por dificuldades na interação social e na comunicação, além da presença de comportamentos repetitivos e interesses restritos. Segundo as recomendações da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil, o TEA é classificado em diferentes níveis de gravidade, dependendo da quantidade de suporte que a pessoa necessita. Alguns indivíduos precisam de pouco suporte, enquanto outros requerem um suporte muito significativo em suas atividades diárias. Agora, aqui está algo muito importante que muitas pessoas não sabem: além das dificuldades sociais e de comunicação, a maioria das crianças com autismo apresenta dificuldades motoras. Estudos recentes mostram que aproximadamente 80% das crianças com TEA apresentam algum tipo de comprometimento na coordenação motora, no equilíbrio ou na execução de movimentos finos. Essas dificuldades podem incluir problemas com coordenação motora grossa, como correr ou pular; dificuldades com coordenação motora fina, como escrever ou usar talheres; problemas de equilíbrio; e até mesmo dificuldades com o planejamento motor, que é a capacidade de planejar e executar movimentos complexos. Então, por que a psicomotricidade é tão importante no contexto do autismo? A resposta é simples mas profunda: o movimento não é apenas sobre desenvolver habilidades físicas. O movimento é fundamental para o desenvolvimento integral da criança. A psicomotricidade integra aspectos neurológicos, psicológicos e motores. Quando trabalhamos o movimento de forma adequada, estamos estimulando não apenas o corpo, mas também o cérebro, as emoções e as habilidades sociais. Pesquisas científicas demonstram que a intervenção motora em crianças com autismo tem efeitos positivos e significativos em várias áreas do desenvolvimento. Um estudo importante realizado pelo Frank Porter Graham Institute, da Universidade da Carolina do Norte, identificou que exercício e movimento estão entre as 28 práticas baseadas em evidências para o tratamento do autismo. Isso significa que não é uma opinião ou uma sugestão vaga. Existem evidências científicas sólidas mostrando que o exercício funciona. E funciona em múltiplas áreas. Estudos mostram que quando crianças com autismo participam de programas de movimento estruturado, elas apresentam melhorias não apenas nas habilidades motoras, mas também em aspectos sociais, de comunicação e até mesmo cognitivos.

Como isso é possível? Bem, o movimento estimula a neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de se reorganizar e criar novas conexões neurais. Quando uma criança com autismo participa de atividades motoras, especialmente aquelas que são estruturadas, previsíveis e reforçadas positivamente, o cérebro está literalmente se desenvolvendo e se adaptando. Além disso, o movimento ajuda na regulação sensorial. Muitas crianças com autismo têm sensibilidades sensoriais aumentadas ou diminuídas. Atividades motoras bem planejadas podem ajudar a regular essas respostas sensoriais, reduzindo a ansiedade e melhorando o bem-estar geral. O movimento também promove inclusão e socialização. Quando uma criança com autismo consegue participar de atividades físicas adaptadas, ela tem oportunidades de interagir com outras crianças, de se sentir parte de um grupo, de experimentar sucesso e de desenvolver confiança em si mesma. Agora, como sabemos se uma criança com autismo tem dificuldades motoras? E como podemos ajudá-la? A resposta começa com uma avaliação adequada. Existem várias ferramentas de avaliação disponíveis para profissionais. Algumas das mais utilizadas incluem o MABC-2, que avalia habilidades motoras em crianças de 3 a 16 anos; o TGMD-3, que avalia habilidades motoras fundamentais; a bateria de teste KTK, o |EDM o DCDQ, que é um questionário que pode ser respondido pelos pais para rastrear dificuldades de coordenação. Uma avaliação completa deve incluir não apenas testes padronizados, mas também observação clínica do movimento da criança em diferentes contextos. É importante avaliar como a criança se move em casa, na escola, em ambientes estruturados e em ambientes menos estruturados. Uma vez que as dificuldades motoras são identificadas, o próximo passo é a intervenção. E aqui está a boa notícia: existem muitas formas eficazes de trabalhar o movimento com crianças com autismo. A psicomotricidade , a educação física adaptada, a fisioterapia, são todas abordagens que podem ser muito benéficas de acordo com terapias motoras são recomentadas pelo documento da SBNI. No documento ainda coloca no item 2 em relação ao diagnsotico “ avaliação do paciente com suspeita de TEA deve incluir uma detalhada história do desenvolvimento neuropsicomotor e anormalidades nos primeiros anos de vida, antecedentes gestacionais e neonatais, como idade dos pais, presença de sangramentos durante a gravidez, diabetes gestacional, infecções e uso de medicamentos”. Atividades motoras estruturadas e até mesmo videogames de movimento podem ser ferramentas valiosas. O que importa é que a atividade seja motivadora para a criança, que ela seja estruturada e previsível, e que haja reforço positivo. Também é fundamental que a família esteja envolvida. Pais e cuidadores podem continuar estimulando o desenvolvimento motor em casa, com atividades simples e divertidas. Não é preciso ser um especialista. Às vezes, as atividades mais simples são as mais eficazes. Então, para resumir: o Transtorno do Espectro Autista é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta a interação social, a comunicação e frequentemente também as habilidades motoras. A psicomotricidade, ou seja, o trabalho com

movimento e atividade física, é uma prática baseada em evidências que pode fazer uma diferença significativa na vida de crianças e adolescentes com autismo. O movimento não é apenas sobre desenvolver músculos e coordenação. É sobre estimular o cérebro, promover inclusão, melhorar a regulação emocional e sensorial, e oferecer oportunidades para que a criança se sinta bem-sucedida e confiante. Se você tem uma criança com autismo, não hesite em procurar profissionais psicomotricistas especializados em avaliação e intervenção motora. Se você é um profissional, lembre-se de que o movimento é uma ferramenta poderosa e baseada em evidências para apoiar o desenvolvimento integral de crianças com TEA. E se você é simplesmente alguém que quer entender melhor o autismo, espero que este episódio tenha ajudado a abrir seus olhos para a importância da psicomotricidade neste contexto.

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