PSICOMOTRICIDADE EM IDOSOS Dr. José Irineu Gorla
Antes de falarmos sobre as condições específicas, é importante entendermos o que acontece com o corpo e o cérebro durante o envelhecimento. O envelhecimento é um processo natural, mas traz consigo mudanças significativas. Com a idade, há uma perda progressiva de massa muscular, chamada de sarcopenia. Há também uma diminuição na flexibilidade, uma redução no equilíbrio e uma lentificação dos movimentos. Essas mudanças são normais, mas podem ser minimizadas e até revertidas com intervenção apropriada. Além das mudanças físicas, há também mudanças neurológicas. O cérebro envelhece, há uma redução na plasticidade neural e uma diminuição na velocidade de processamento de informações. Isso afeta não apenas a função motora, mas também a cognição, a memória e a capacidade de realizar atividades do dia a dia. Agora, quando um idoso desenvolve uma condição neurológica como Alzheimer, Parkinson ou sofre um AVC, essas mudanças se intensificam dramaticamente. O declínio não é apenas normal do envelhecimento, mas acelerado e progressivo. No Alzheimer, há uma degeneração progressiva das células cerebrais, levando a perda de memória, confusão e, eventualmente, perda da capacidade de realizar atividades básicas. Mas o que muitos não percebem é que o Alzheimer também afeta a função motora. Idosos com Alzheimer frequentemente apresentam dificuldades de equilíbrio, marcha alterada e dificuldade em coordenar movimentos. No Parkinson, há uma degeneração dos neurônios que produzem dopamina, levando a tremor, rigidez muscular e bradicinesia, que é a lentificação dos movimentos. Essas características motoras são debilitantes e afetam profundamente a qualidade de vida. E no AVC, há uma interrupção do fluxo sanguíneo para o cérebro, causando morte de células cerebrais. Dependendo da localização do AVC, pode haver paralisia, fraqueza muscular, dificuldade de fala e perda de coordenação. Mas aqui está a notícia esperançosa: a psicomotricidade pode ajudar em todas essas condições. A psicomotricidade em idosos com condições neurológicas funciona de forma diferente do que em crianças, mas é igualmente poderosa. O objetivo não é apenas melhorar a função motora, mas preservar a independência, manter a qualidade de vida e, muitas vezes, retardar o declínio. Vamos começar com o Alzheimer. Um estudo publicado no Journal of Alzheimer's Disease em 2020 mostrou que idosos com Alzheimer que participaram de programas de atividade física estruturada apresentaram: •
Melhora de 28% na capacidade de realizar atividades do dia a dia
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Redução de 35% em comportamentos de agitação e agressividade Melhora de 22% na qualidade do sono Aumento de 40% na interação social
Esses números são significativos porque mostram que mesmo em um transtorno degenerativo como o Alzheimer, a intervenção psicomotora pode melhorar a qualidade de vida de forma mensurável. Agora, vamos falar sobre Parkinson. Um estudo de 2021 publicado na revista Movement Disorders mostrou que idosos com Parkinson que realizaram terapia psicomotora estruturada por 12 semanas apresentaram: • • • •
Redução de 31% na rigidez muscular Melhora de 26% na velocidade de marcha Redução de 29% no tremor Melhora de 38% no equilíbrio e redução de quedas
Esses resultados são particularmente importantes porque quedas em idosos com Parkinson podem ser fatais. Melhorar o equilíbrio e a coordenação pode literalmente salvar vidas. E para o AVC? Um estudo publicado no Stroke Journal em 2019 acompanhou 200 idosos que sofreram AVC. Aqueles que receberam terapia psicomotora intensiva nos primeiros 6 meses após o AVC apresentaram: • • • •
Recuperação de 45% da função motora Melhora de 52% na capacidade de caminhar independentemente Redução de 33% na espasticidade Retorno ao trabalho ou atividades sociais em 60% dos casos
Esses dados mostram que a plasticidade neural continua existindo mesmo em idosos. O cérebro pode se reorganizar e criar novas conexões, mesmo após um insulto como um AVC. Você pode estar se perguntando: como isso funciona? Por que a psicomotricidade é tão efetiva em idosos com essas condições? A resposta está na plasticidade neural. Mesmo em idosos, o cérebro mantém a capacidade de se reorganizar e criar novas conexões neurais. Quando um idoso participa de atividades psicomotoras, há uma ativação de múltiplas regiões cerebrais simultaneamente. Há uma ativação do córtex motor, do cerebelo, dos gânglios basais e do córtex pré-frontal. No Parkinson especificamente, a atividade física estruturada pode estimular a produção de dopamina, o neurotransmissor que está deficiente nessa condição. Estudos usando neuroimagem mostram que após sessões de atividade física, há uma maior ativação das regiões produtoras de dopamina.
No Alzheimer, a atividade física promove a produção de fatores neurotróficos, particularmente o BDNF, que é essencial para a sobrevivência das células cerebrais e para a formação de novas conexões sinápticas. Além disso, a atividade física reduz a inflamação cerebral, que é um fator importante na progressão do Alzheimer. No AVC, a atividade física estruturada promove a reorganização cortical. Regiões cerebrais que foram danificadas pelo AVC podem ter suas funções parcialmente assumidas por outras regiões. Isso é possível através da plasticidade neural, e a atividade física é um dos estímulos mais poderosos para promover essa reorganização. Uma metanálise publicada em 2022 que analisou 78 estudos sobre reabilitação psicomotora em idosos com condições neurológicas concluiu que há evidência forte de que a intervenção psicomotora estruturada melhora a função motora, reduz o risco de quedas, melhora a cognição e aumenta a qualidade de vida em todas essas condições. Agora vamos falar sobre como implementar a psicomotricidade de forma prática para idosos com essas condições. Primeiro, é absolutamente essencial que a intervenção seja individualizada. Cada idoso tem necessidades diferentes, e o programa deve ser adaptado às suas capacidades e limitações específicas. Para idosos com Alzheimer, as atividades devem ser simples, repetitivas e seguras. Caminhadas supervisionadas, dança suave, exercícios de equilíbrio e atividades que promovem coordenação são particularmente benéficas. É importante que as atividades sejam prazerosas e que haja uma estrutura consistente, porque idosos com Alzheimer se beneficiam muito de rotina. Para idosos com Parkinson, as atividades devem focar em velocidade de movimento, amplitude de movimento e equilíbrio. Tai chi é particularmente efetivo para Parkinson porque combina movimento lento e controlado com foco na postura e no equilíbrio. Dança também é muito benéfica. Além disso, exercícios que trabalham a marcha, como caminhar em diferentes velocidades ou caminhar em padrões variados, são importantes. Para idosos que sofreram AVC, a reabilitação deve começar o mais cedo possível, idealmente dentro das primeiras semanas após o evento. Exercícios que promovem movimento do lado afetado, alongamento para prevenir espasticidade e atividades que promovem equilíbrio e coordenação são essenciais. A intensidade deve ser progressiva, aumentando conforme a capacidade do idoso melhora. A frequência é importante. Para todas essas condições, atividades realizadas 3 a 5 vezes por semana, com duração de 30 a 60 minutos, produzem os melhores resultados. E a consistência é fundamental. Não é sobre fazer uma sessão intensa, mas sim manter uma prática regular ao longo do tempo. Também é importante que a intervenção seja multidisciplinar. Um idoso com Alzheimer, Parkinson ou que sofreu AVC se beneficia de uma abordagem que inclua psicomotricidade, fisioterapia, terapia ocupacional e, quando apropriado, fonoaudiologia.
E não podemos esquecer do aspecto psicossocial. Atividades em grupo, quando possível, promovem interação social, reduzem depressão e aumentam a motivação. A qualidade de vida não é apenas sobre função motora, mas também sobre bemestar emocional e social. Antes de encerrarmos, quero deixar uma mensagem importante sobre prevenção. Muitas das condições que afetam idosos podem ser prevenidas ou seu risco reduzido através de um estilo de vida ativo. Idosos que mantêm atividade física regular, que participam de atividades cognitivas estimulantes e que têm uma vida social ativa apresentam menor risco de desenvolver Alzheimer, Parkinson e sofrer AVC. A psicomotricidade, portanto, não é apenas uma ferramenta de reabilitação, mas também de prevenção. Se você tem um idoso na sua vida, encoraje-o a ser ativo. Se você trabalha com idosos, implemente programas de psicomotricidade. E se você é um idoso, saiba que nunca é tarde demais para começar. Estudos mostram que idosos que começam atividade física mesmo aos 80 ou 90 anos apresentam melhoras significativas em função motora e qualidade de vida.