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5 min 18 Mar 2026

Avaliação psicomotora

Leitura sobre como a avaliação psicomotora ajuda a interpretar qualidade de movimento, ruído motor e sinais de neurodesenvolvimento.

Avaliação psicomotora

Avaliação psicomotora Dr. José Irineu Gorla E eu sei o que alguns de vocês podem estar pensando... "Ah, avaliação motora... é para ver se a criança é desajeitada? Se ela consegue chutar uma bola ou pular num pé só?" Sim, é para isso também. Mas hoje eu quero propor uma reflexão muito mais profunda. E se eu te dissesse que a forma como uma criança se move, a qualidade do seu gesto, a fluidez da sua ação... pode nos dar pistas valiosíssimas sobre como o cérebro dela está se organizando, se desenvolvendo e se comunicando com o mundo? É exatamente sobre isso que vamos conversar. Sobre como a avaliação psicomotora vai muito além de um checklist de habilidades. Ela é uma verdadeira janela para o neurodesenvolvimento. Vamos começar com um dado que talvez te surpreenda. Uma revisão sistemática muito recente, publicada em 2025 por um grupo liderado por Piccolo, analisou 22 estudos sobre avaliação motora no Transtorno do Espectro Autista. E a conclusão é impressionante: os déficits motores são altamente prevalentes em indivíduos com TEA. Estamos falando de uma frequência que pode chegar a 87% em algumas pesquisas! O que isso significa? Significa que a grande maioria das crianças no espectro tem, sim, alguma dificuldade motora. Pode ser na coordenação fina, no equilíbrio, no planejamento de um movimento... E aqui vem o ponto central, o que me move como pesquisador: apesar dessa prevalência altíssima, e apesar de sabermos que os sinais motores podem aparecer antes mesmo dos sinais sociais clássicos, os déficits motores NÃO são considerados um critério diagnóstico para o autismo no DSM-5. O que acontece na prática? Essas dificuldades são frequentemente subdiagnosticadas. São vistas como "coisa da criança", como uma comorbidade separada, como um Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação (o TDC), mas não como parte do núcleo do autismo. E é aqui que a avaliação psicomotora se torna uma ferramenta de uma importância gigantesca. Porque ela não serve apenas para dizer "sim" ou "não", "consegue" ou "não consegue". Ela serve para nos dizer o "COMO". E esse "como" nos leva a um conceito fascinante que está na vanguarda da pesquisa em neurociência: o "ruído motor". Um estudo brilhante de 2024, de Mandelli e seus colaboradores, mostrou algo incrível. Eles não apenas confirmaram que existe uma grande heterogeneidade motora no autismo, mas conseguiram dividir, com base em dados, as crianças em dois subtipos: um com habilidades motoras mais altas e outro com habilidades mais baixas.

E a grande descoberta foi que o grupo com baixo desempenho motor tinha o que eles chamaram de "ruído motor aumentado". Mas o que é isso? Pense em um rádio mal sintonizado. A música está lá, mas cheia de chiado, de interferência. O ruído motor é parecido. Não é que a criança não consiga fazer o movimento, mas a execução é inconsistente, variável, "ruída". A trajetória do braço para pegar um objeto não é limpa e direta, ela é cheia de pequenos ajustes, de hesitações. E o mais incrível é que esse "ruído" no movimento parece ser um reflexo do que está acontecendo no cérebro! Ele pode ser um biomarcador comportamental de um desequilíbrio entre os sinais excitatórios e inibitórios nos circuitos neurais, que é uma das principais teorias sobre a neurobiologia do autismo. Percebem a profundidade disso? Uma avaliação psicomotora bem-feita, que não olha só o resultado final, mas a qualidade do processo, pode nos dar pistas sobre a própria organização neural daquela criança! Ela nos permite ir além do rótulo e começar a entender o indivíduo. Então, por que avaliar é tão importante? Primeiro: Para um diagnóstico mais completo e precoce. Se sabemos que os sinais motores são precoces e prevalentes, por que vamos esperar? Uma avaliação detalhada pode levantar uma bandeira vermelha muito antes, permitindo que a intervenção comece nas janelas de desenvolvimento mais cruciais. Segundo: Para direcionar a intervenção. Quando eu identifico que o problema de uma criança não é força, mas sim planejamento motor, ou que a dificuldade dela no equilíbrio está ligada a uma questão sensorial, a minha intervenção muda completamente! Eu deixo de fazer um treino genérico e passo a atuar na causa raiz da dificuldade. A avaliação me dá o mapa do tesouro. Terceiro: Para medir o progresso de forma objetiva. A avaliação nos dá uma linha de base. Sem ela, ficamos no "achismo". Com ela, podemos dizer aos pais, à escola e à equipe: "Olha, em janeiro ele estava aqui. Hoje, em junho, ele avançou para cá". Isso dá credibilidade ao nosso trabalho e motivação para a família e para a criança. E, finalmente, para lutar por políticas públicas. Estudos como esses que mencionei são a nossa munição para mostrar a gestores e ao sistema de saúde que a avaliação psicomotora não é um luxo. É uma necessidade. É uma ferramenta essencial para um diagnóstico preciso e para uma intervenção eficaz. Então, da próxima vez que você ouvir falar em avaliação psicomotora, lembrese: não estamos apenas medindo movimentos. Estamos observando o cérebro em ação. Estamos decodificando a linguagem do corpo para entender a mente. E ao fazer isso, abrimos portas para um desenvolvimento mais pleno, mais feliz e com muito mais qualidade de vida para as nossas crianças.

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