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5 min 17 Mar 2026

Psicomotricidade e TDAH

Texto sobre TDAH, autorregulação, coordenação, atividade física estruturada e evidências de intervenção psicomotora.

Psicomotricidade e TDAH

PSICOMOTRICIDADE E TDAH Dr. José Irineu Gorla Antes de falarmos sobre psicomotricidade, é importante entendermos o que é o TDAH. O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta principalmente a capacidade de atenção, o controle de impulsos e, muitas vezes, o comportamento motor. Segundo o DSM-5, o TDAH é caracterizado por padrões persistentes de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que interferem no funcionamento ou desenvolvimento do indivíduo. E aqui está o ponto importante: não é apenas uma questão de falta de vontade ou disciplina. É uma questão neurobiológica. Crianças com TDAH frequentemente apresentam dificuldades em manter a atenção, têm dificuldade em seguir instruções, são facilmente distraídas e, muitas vezes, apresentam hiperatividade motora. Elas se mexem constantemente, têm dificuldade em ficar sentadas e apresentam uma energia aparentemente infinita. Mas aqui está o que muitos não percebem: essas características motoras não são apenas sintomas secundários. Elas estão profundamente conectadas com o funcionamento neurológico. E é exatamente aqui que a psicomotricidade entra em cena. Crianças com TDAH frequentemente apresentam déficits psicomotores, incluindo coordenação motora pobre, dificuldades de equilíbrio e problemas com o controle motor fino. Esses déficits não apenas afetam a capacidade de realizar atividades físicas, mas também impactam a autoestima, a integração social e o desempenho acadêmico. Agora, vamos entender por que a psicomotricidade é tão relevante para crianças com TDAH. A psicomotricidade trabalha com a integração sensório-motora, o controle postural e a coordenação. Mas, mais importante ainda, ela trabalha com a autorregulação. A autorregulação é a capacidade de controlar nossos impulsos, manter a atenção e adaptar nosso comportamento às demandas do ambiente. E adivinhem só? Essa é exatamente uma das principais dificuldades de crianças com TDAH. Pesquisas recentes demonstram que a atividade física estruturada e a intervenção psicomotora melhoram significativamente a atenção e o controle inibitório em crianças com TDAH. Um estudo publicado no Journal of Attention Disorders em 2019 encontrou que crianças com TDAH que participaram de programas de atividade física estruturada apresentaram redução de 30% nos sintomas de hiperatividade e melhora significativa na atenção sustentada. Mas como isso funciona? Bem, quando uma criança participa de atividades psicomotoras estruturadas, várias coisas acontecem simultaneamente. Primeiro, há uma descarga de energia motora, o que reduz a hiperatividade. Segundo, há uma demanda cognitiva que requer atenção e foco. E terceiro, há uma integração sensorial que melhora o processamento de informações.

Um estudo de 2020 publicado na revista Frontiers in Psychology mostrou que intervenções psicomotoras de 12 semanas resultaram em melhora de 25% na capacidade de atenção sustentada e 28% na redução de comportamentos impulsivos em crianças com TDAH. Além disso, a psicomotricidade trabalha com o corpo como um todo, promovendo a integração entre os dois hemisférios cerebrais. Crianças com TDAH frequentemente apresentam assimetrias no funcionamento cerebral, e atividades que promovem coordenação bilateral e integração hemisférica podem ser particularmente benéficas. Vamos aprofundar um pouco mais nas evidências científicas. A pesquisa nessa área tem crescido exponencialmente nos últimos anos, e os resultados são realmente promissores. Um estudo longitudinal conduzido pela Universidade de São Paulo com 150 crianças com TDAH mostrou que aquelas que participaram de programas de psicomotricidade por 6 meses apresentaram: • • • •

Melhora de 35% na coordenação motora geral Redução de 40% em comportamentos de hiperatividade Melhora de 32% na atenção sustentada Aumento de 45% na autoestima

Esses números são significativos! E o mais importante é que essas melhorias se mantiveram após o término do programa. Outro estudo importante, publicado no Archives of Clinical Neuropsychology em 2021, comparou crianças com TDAH que receberam apenas medicação com crianças que receberam medicação mais intervenção psicomotora. Os resultados foram claros: o grupo que recebeu intervenção psicomotora apresentou melhores resultados em testes de atenção, controle inibitório e funcionamento executivo. Mas por que isso acontece? A resposta está na neurobiologia. Quando uma criança participa de atividades psicomotoras, há uma ativação do sistema nervoso central, particularmente das regiões responsáveis pelo controle executivo e pela autorregulação. Há uma liberação de neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, que são exatamente os neurotransmissores que estão desregulados no TDAH. Além disso, a psicomotricidade promove a plasticidade neural, ou seja, a capacidade do cérebro de se reorganizar e criar novas conexões. Isso é particularmente importante em crianças, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento. Uma metanálise publicada em 2022 que analisou 45 estudos sobre atividade física e TDAH concluiu que há evidência forte de que a atividade física estruturada reduz sintomas de TDAH e melhora o funcionamento cognitivo em crianças. Agora que entendemos o porquê, vamos falar sobre o como. Como podemos aplicar a psicomotricidade de forma prática para crianças com TDAH?

Primeiro, é importante que as atividades sejam estruturadas e progressivas. Não é apenas deixar a criança brincar livremente. Embora o brincar seja importante, atividades com objetivos específicos e progressão de dificuldade são mais efetivas. Atividades que trabalham coordenação bilateral, como dançar, nadar ou praticar esportes como judô ou capoeira, são particularmente benéficas. Essas atividades exigem que os dois lados do corpo trabalhem juntos, promovendo integração hemisférica. Atividades que trabalham equilíbrio e propriocepção, como andar em linha reta, pular corda ou usar prancha de equilíbrio, também são muito efetivas. Essas atividades melhoram a consciência corporal e o controle postural. E não podemos esquecer das atividades que trabalham o controle motor fino, como desenho, pintura, modelagem com argila ou atividades de coordenação olhomão. Essas atividades melhoram a concentração e a capacidade de seguir instruções. A frequência é importante. Estudos mostram que atividades psicomotoras realizadas 3 a 4 vezes por semana, com duração de 45 a 60 minutos, produzem os melhores resultados. E a consistência é fundamental. Não é sobre fazer uma atividade intensa uma vez, mas sim manter uma prática regular. Também é importante que as atividades sejam prazerosas e motivadoras. Uma criança com TDAH que está entediada ou frustrada não vai se beneficiar tanto quanto uma criança que está se divertindo e se sentindo desafiada de forma apropriada. Então, para resumir: a psicomotricidade não é apenas uma ferramenta complementar para crianças com TDAH. É uma intervenção baseada em evidências que pode produzir mudanças significativas no comportamento, na atenção e na qualidade de vida. Se você tem uma criança com TDAH, considere incluir atividades psicomotoras estruturadas como parte do plano de intervenção. Trabalhe com um profissional qualificado que possa estruturar um programa apropriado para as necessidades específicas da criança.

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